Este projeto faz parte das minhas ideias anteriores e futuras sobre um mundo imaginário de fantapunk (fantasia medieval e steam punk vitoriano)
segunda-feira, 3 de novembro de 2025
Half Lins Ecos do Abandono
A Lenda de Half Lins: Ecos do Abandono A história de Half Lins começa nas sombras da perda e da incerteza, como um sussurro esquecido entre as folhas de uma macieira. O vento daquela manhã parecia mais frio, e o choro da criança recém-abandonada ecoava pelas colinas que cercavam o Castelo de Ônix. Não havia olhos que o vissem, nem mãos que o acolhesse. Apenas o destino, invisível e cruel, que o observava de longe e sorria em silêncio. Assim nascia Half Lins — o menino que aprendeu cedo demais o significado da solidão. Cresceu entre o pó das estradas e o farfalhar das folhas. Quando olhava para o horizonte, sonhava com rostos que nunca vira. Imaginava uma mãe de cabelos dourados e um pai de voz firme, mas eram apenas sonhos, teias frágeis que o tempo desfazia. Os gnomos que o encontraram sob a macieira pareciam enviados por piedade, mas logo se foram, levando com eles o pouco de esperança que Half guardava. “As pessoas sempre vão embora”, ele pensou, e desde então aprendeu a não se apegar. Foi numa tarde chuvosa que o destino lhe mostrou outro rosto. Diante de uma casa coberta de heras e musgo, encontrou um novo lar — ou algo que se assemelhava a isso. Dentro daquela morada sombria viviam espiões, ladrões, assassinos e diplomatas da escuridão. Era o covil da guilda Sun Fay, o império das sombras. Ali, Half foi acolhido por Anthony, o homem que o mundo chamava de Toninho Gaivota. Ele não ofereceu carinho, mas deu algo mais valioso: ensinamentos. “O mundo pertence a quem sabe esperar nas sombras”, dizia. “Mas jamais traia a si mesmo.” Toninho era um homem duro, moldado pela vida e quebrado por perdas antigas. Via em Half algo que lembrava seu próprio passado: um olhar que misturava medo e coragem. Com o tempo, mestre e aprendiz criaram um laço. Não de sangue, mas de sobrevivência. Half aprendeu a lutar, a mentir, a sorrir quando a dor apertava o peito. E, no fundo, esperava que um dia Toninho dissesse: “Tenho orgulho de ti.” Mas essas palavras nunca vieram. Aos dezoito anos, Half já era vice-líder da guilda. Carregava nos ombros a reputação de um prodígio e a alma de um órfão. A cada roubo, a cada missão, sentia que algo lhe escapava — como se roubasse dos outros apenas para preencher o próprio vazio. À noite, sentado sobre os telhados da cidade, olhava o colar de diamante pendurado no peito e sussurrava: “Por que me deixaste, mãe?” Mas o vento, como sempre, não respondia. Quando Toninho adoeceu, o castelo de certezas de Half começou a ruir. Ele o velou por dias, sem dormir, tentando impedir o inevitável. Nas últimas horas, o velho ladrão o chamou e disse, com voz trêmula: “Meu filho… há luz até mesmo nas sombras.” Essas foram as últimas palavras de Toninho Gaivota. Quando a mão dele caiu imóvel, Half sentiu que uma parte de si morria junto. Naquele dia, o menino que buscava amor tornou-se o homem que buscaria redenção. Sob o comando de Half, a Sun Fay prosperou. Tornou-se uma rede de espiões, ladrões e informantes espalhados por reinos distantes. Os poderosos o temiam, e os pobres o reverenciavam. Mas o trono das sombras é frio, e a solidão reina em silêncio. Mesmo cercado de aliados, Half se via cada vez mais distante de si mesmo. Os rostos dos companheiros tornaram-se sombras, risos e ecos. E o colar — aquele pequeno diamante herdado do abandono — começou a pesar mais do que nunca. Aos vinte e três anos, algo o chamou de volta ao ponto de origem: o Castelo de Ônix. Ele se disfarçou entre mercadores e chegou às muralhas escuras, onde sentiu o coração bater de forma estranha. O vento murmura seu nome. Talvez a verdade o esperasse lá dentro. Mas ele recuou. Tinha medo. Não do que encontraria, mas do que deixaria de ser ao descobrir. Às vezes, conhecer o passado é o mesmo que perder o futuro. Aos vinte e cinco anos, sua fama já ultrapassou fronteiras. Um espião de apenas um metro e cinco, invisível aos olhos, rápido como o vento. Os rumores diziam que seu sangue era misto, que sua mãe fora uma fada que se apaixona por um homem mortal. Talvez por isso ele nunca envelhecesse, talvez por isso o destino o perseguisse. Nas noites silenciosas, ele jurava ouvir uma voz feminina chamando seu nome — uma voz doce e triste, como se viesse de outro mundo. Aos trinta, o tempo lhe apresentou uma nova encruzilhada. Em um sonho vívido, o deus dos Portais, Lorde Angles, apareceu envolto em névoa e luz. “Há uma vila que clama por ti, Half Lins”, disse. “Mas lá, não encontrarás tesouros. Encontrarás verdades.” E o deus o enviou para Lunarfall, um lugar que não existia nos mapas, onde o céu parecia chorar estrelas e as montanhas sussurravam memórias. Half partiu, deixando tudo para trás — a guilda, os amigos, a glória. Carregava apenas o colar e o peso de todas as perguntas sem resposta. A viagem foi longa e solitária. Em cada vila, via reflexos de si mesmo: crianças abandonadas, velhos esquecidos, corações em busca de amor. Pela primeira vez, entendeu que sua dor não era única — era humana. Quando chegou a Lunarfall, encontrou uma vila mergulhada em neblina e silêncio. As casas pareciam respirar, e o tempo se curvava sobre si mesmo. À noite, sonhava com o rosto de Toninho e o sorriso de uma mulher que nunca conhecera. Um dia, caminhando pelo bosque, encontrou uma árvore retorcida e frutífera — uma macieira. Ao se aproximar, sentiu algo em seu peito vibrar. E ali, no tronco, estava gravado um nome: “Half”. Ele ajoelhou e chorou. Chorou por todas as vezes que fingiu ser forte, por todos os abraços que não teve, por todas as despedidas que nunca disse. Chorou até que o colar brilhasse e uma voz suave ecoasse: “Meu filho, eu sempre te vi.” Por um instante, ele sentiu o toque quente de uma mão invisível e o perfume de maçãs no ar. Era ela. Era sua mãe. Naquele momento, Half entendeu que o abandono não era o fim — era o início da busca por si mesmo. E, quando o sol nasceu sobre Lunarfall, ele caminhou para dentro da névoa, sem olhar para trás. Dizem que nunca mais foi visto. Alguns afirmam que ascendeu entre os deuses; outros, que vive nas sombras, guiando os perdidos. Mas todos concordam em uma coisa: onde há um coração ferido, há um sussurro de Half Lins, o menino que transformou a dor em lenda
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