Gimlet nasceu entre o som dos martelos e o cheiro de carvão, numa pequena oficina de pedra nas encostas do vale cinzento. Filho único de Túlio Roberto, um ferreiro e guerreiro de coração firme, cresceu entre brasas, metal e disciplina. Túlio acreditava que o ferro ensinava melhor que palavras e assim criou o filho com o mesmo rigor com que temperava o aço: calor, paciência e propósito.
Desde pequeno, Gimlet aprendeu o estilo de luta com duas armas, técnica que o pai dizia representar o equilíbrio entre o dever e a compaixão.
Túlio não falava em glória nem em fé, apenas em justiça, a forma mais pura de servir ao mundo. Quando Gimlet completou vinte anos, Túlio foi chamado ao Castelo de Ônix, a morada do Deus do Equilíbrio, Angus.
Angus o havia convidado pessoalmente para ser guardião do castelo, uma função de vigilância e conselho, protegendo o domínio divino e guiando viajantes e estudiosos que buscavam o equilíbrio. Antes de partir, Túlio olhou o filho e disse apenas:
> “Como sua vó já dizia, se cuida meu fih, segue o bom caminho ou eu te lasco o laço"
Com o pai ausente, Gimlet seguiu o chamado que ardia em seu peito e partiu para a Forja Divina de Khalmir, o templo consagrado ao Deus da Justiça. Ali, ele buscou compreender o fogo que sentia dentro de si uma chama que parecia reagir à sua própria alma. Na Forja, Gimlet trabalhou por anos sob o juramento de Khalmir. Moldava armas para templários, julgava aço com o mesmo olhar com que julgava homens. Seu zelo era puro, mas sua fé era exigente, e o fogo de Khalmir queimava cada vez mais forte dentro dele. Até o dia em que o deus caiu. Ninguém sabe dizer como ou por quê, mas quando Khalmir tombou, seu fogo divino procurou refúgio, e encontrou Gimlet. Ele caiu de joelhos na forja, sentindo o peito arder como se o metal dentro dele se tornasse vivo. O fogo penetrou sua carne, e uma criatura branca se enrolou em suas veias antes de desaparecer dentro do corpo. Angus foi quem o encontrou.
O Deus do Equilíbrio olhou para o anão e disse:
> “O fogo da justiça é um peso que ninguém deveria carregar.
> Por isso, vou te dar correntes, e nelas repousará teu castigo e tua salvação.”
E asim selou Gimlet com correntes incandescentes.. um selo sagrado que queimava noite e dia.
Angus contou-lhe que era uma punição para conter a ira de Khalmir em seu corpo. Mas mentiu. Na verdade, as correntes mantinham adormecido o parasita branco, com seu verdadeiro nome de "Desiderio" um fragmento vivo da dor do deus morto. Anos depois, cansado da guerra e da fé partida, Gimlet se retirou para o norte, nas montanhas geladas. Ali, construiu uma pequena oficina e viveu sozinho, alimentando a forja apenas o suficiente para manter o selo aquecido.
Durante muito tempo, as correntes ardiam.. e o fogo o mantinha vivo.
Mas então o inverno chegou. O frio apagou parte do calor das correntes. E, numa noite em que o vento soava como vozes, Gimlet sentiu algo se mover dentro dele.Um frio rastejante subiu-lhe a espinha. As veias se destacaram sob a pele, brancas como mármore. E dentro do reflexo do metal fundido, viu algo imenso e disforme se contorcendo, um corpo branco, de quatro vezes a sua altura, preso nas sombras da forja. Uma voz ecoou, distante e sem boca:
> “Tu o chamaste de deus.
> Eu o chamo de carcaça.
> O que tu carregas, pequeno ferreiro?"
O fogo reacendeu sozinho. As correntes voltaram a brilhar. Um corte abriu se sob sua barriga, mas não sangrava, apenas estava lá, Gimlet olhou para dentro e lá viu uma coisa, o parasita.
E o parasita adormeceu novamente, saciado pela dor e pelo medo do ferreiro. No dia seguinte quando acordou de um sono muito ruim, Gimlet viu que não havia corte nenhum em sua barriga, então crê que era coisas de sua cabeça. Desde então, Gimlet vive em silêncio.
"Desiderio"

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